Friday, March 11, 2005

A Viagem

Dois monges andam em viagem. Nos últimos três dias, apenas encontraram uma velha sentada à porta da sua cabana. Ofereceu-lhes um pouco de cevada torrada, misturada com chá e manteiga rançosa. Esta magra tsampa comida na vespera, já lhes desceu aos calcanhares. Têm fome, têm frio. De repente, a chuva começa a cair. O mais jovem dos monjes protege-se o melhor que pode com as dobras da túnica. O mais velho segue em frente em silencio. A noite cai, nenhum abrigo no horizonte, nem templo, nem ermitério, nem a mais modesta cabana. O caminho que seguem perde-se ao longe na montanha. O jovem noviço já não pode mais. Ignora o fim desta interminavel viagem.
"O templo Zen não deve estar longe, pensa, parece-me que nos aproximamos de Kamakura, mas será esse o nosso destino?"
Rompendo as estritas regras do silêncio, ousa interrogar o seu superior, que caminha tranquiliamanete.
"Mestre, para onde vamos?"
- Já lá estamos, responde o mestre.
- Quer dizer que a etapa está próxima?, insiste o jovem monge.
- Aqui agora. Já lá estamos.
O noviço espantado olha o caminho pedregoso que mergulha na bruma. Ao longe, os cumes medonhos perdem-se já na noite. Tem medo, tem frio, tem fome. E bruscamente, num clarão, compreende. Lembra-se das palavras que tantas vezes lhe repetiam no mosteiro: "O zen é um caminho que segue...". Cada passo neste caminho, contém a eternidade. No presente encaixa-se a vida, o oásis, o infinito. Saboreio o presente, o passado passou, o futuro é um sonho, só o presente é. Quando despertamos para a verdade, diz um poema antigo, "o espírito torna-se brilhante e luminoso, como um raio de lua".
O noviço murmurando estas coisas seguia em paz.

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