Tuesday, March 15, 2005

O Amor Vai-se

Um jovem pobre chamado Iruka amava com toda a loucura do seu coração uma jovem rica, e bela, ainda por cima. Como era letrado, Iruka escreveu á sua bem amada uma carta de amor todos os dias durante três longos anos, sem falhar uma única vez. No terceiro ano, ousou sugerir-lhe que lhe desse um sinal por ocasião da festa do bon (festa dos mortos). Mas a bem amada não respondeu, nem olhou, e nunca lhe manifestou o menor interesse. Então o coração de Iruka cansou-se. Pensou em ir para monge, o que efectivamente fez.
E o tempo passou...
Numa manhã de Primavera, ao ir buscar água ao poço situado ao pé do ermitério, Iruka encontrou Chunjö, pela primeira e ultima vez na vida. Ela atirou-se-lhe aos pés:
- Iruka! - exclamou, - caminhei longos meses antes de te encontrar, vejo-te por fim, admirável Iruka! O teu amor que mil cartas testemunham acabou por tocar o meu coração.
Ao dizer estas palavras ela destapou o rosto até então tapado por um véu de seda, e a sua beleza era tal que fez empalidecer a luz do dia.
- Sou tua, Iruka, amo-te hoje como tu me amavas antes.
Iruka respondeu-lhe:
- É demasiado tarde, Chujö, rompi toda a ligação com esse tipo de amor. Sou monge.
E, sem um olhar, foi-se embora.
Chujö, desesperada, atirou-se ao rio e afogou-se.
Ao saber da noticia, Iruka compôs este poema:

Não fica no ramo,
a flor de cerejeira,
morre antes do Verão.


Esta história pertence agora ao passado. Tudo o que nasce, morre. Tudo o que vem, vai, só o Atma eterno fica.

Friday, March 11, 2005

A Viagem

Dois monges andam em viagem. Nos últimos três dias, apenas encontraram uma velha sentada à porta da sua cabana. Ofereceu-lhes um pouco de cevada torrada, misturada com chá e manteiga rançosa. Esta magra tsampa comida na vespera, já lhes desceu aos calcanhares. Têm fome, têm frio. De repente, a chuva começa a cair. O mais jovem dos monjes protege-se o melhor que pode com as dobras da túnica. O mais velho segue em frente em silencio. A noite cai, nenhum abrigo no horizonte, nem templo, nem ermitério, nem a mais modesta cabana. O caminho que seguem perde-se ao longe na montanha. O jovem noviço já não pode mais. Ignora o fim desta interminavel viagem.
"O templo Zen não deve estar longe, pensa, parece-me que nos aproximamos de Kamakura, mas será esse o nosso destino?"
Rompendo as estritas regras do silêncio, ousa interrogar o seu superior, que caminha tranquiliamanete.
"Mestre, para onde vamos?"
- Já lá estamos, responde o mestre.
- Quer dizer que a etapa está próxima?, insiste o jovem monge.
- Aqui agora. Já lá estamos.
O noviço espantado olha o caminho pedregoso que mergulha na bruma. Ao longe, os cumes medonhos perdem-se já na noite. Tem medo, tem frio, tem fome. E bruscamente, num clarão, compreende. Lembra-se das palavras que tantas vezes lhe repetiam no mosteiro: "O zen é um caminho que segue...". Cada passo neste caminho, contém a eternidade. No presente encaixa-se a vida, o oásis, o infinito. Saboreio o presente, o passado passou, o futuro é um sonho, só o presente é. Quando despertamos para a verdade, diz um poema antigo, "o espírito torna-se brilhante e luminoso, como um raio de lua".
O noviço murmurando estas coisas seguia em paz.